
É preocupante a apreensão do pessoal da Ong Natal Voluntários com a ausência do “teste do pezinho” nos bebês que nascem todo dia em mais de sessenta cidades do Rio Grande do Norte. Numa terra aonde até vice-prefeito e suplente de vereador têm caminhonete cabine dupla e conta bancária idem, é vergonhoso a falta de tão simples procedimento médico.Tomara que todos aqueles avanços tecnológicos que a gente vê no cinema, um dia se transformem em realidade. Como todo cientista é um sonhador e faz das descobertas sua poesia, creio que num futuro próximo a literatura médica destacará componentes eletrometálicos, os tais chips, que já virão instalados no ser humano para detectar toda e qualquer enfermidade futura. Teremos assim o controle prévio do nosso metabolismo.Me causa indignação, no entanto, o tempo presente, esse tempo do atraso. E por mais que a medicina e a ciência avancem, é no atraso humano onde reside o maior obstáculo para a solução de problemas tão simples como um “teste do pezinho”, ou para curar patologias banais que acabam matando humildes na periferia das cidades, cujos centros de saúde são o retrato do descaso político-administrativo com o cidadão.Portanto, como o atraso está mesmo na política e não na ciência, imagino como seria salutar um futuro com todos os seres humanos trazendo no pé um chip que identificasse desvios éticos, intenções parasitárias, projetos mesquinhos e planos pessoais no serviço público. Cada um dos nossos sucessores seria como um novo Aquiles, trazendo no calcanhar a marca que indicaria fraquezas e virtudes.Quando chegassem à vida adulta e decidissem assumir uma importante função política, se submeteriam a um “teste do pezinho” diante das autoridades eleitorais. Por causa do chip no pé, todos os seus passos estariam registrados: os partidos que encontrou no caminho, os adversários que pisoteou, os amigos que chutou, as administrações onde trocou os pés pelas mãos e as companhias que teve andando ao seu lado.Com o pé plugado num poderoso computador, ligado em rede com os computadores pessoais dos contribuintes, sua vida (enfim pública) estaria disponível para a avaliação eleitoral. Poderíamos todos saber em que palanque aqueles pés já haviam pisado, se o aliado da hora já trocara pontapés discursivos em campanhas passadas, ou se as caminhadas ditas cívicas não passaram de um bater de pernas atrás do voto fácil.Ah, se no Rio Grande do Norte e no Brasil os atos administrativos estivessem de acordo com o sentimento ético e o verdadeiro espírito público das autoridades. Como seria bom não ter que perder recém-nascidos por causa da ausência de atendimentos médicos banais. O “teste do pezinho” reclamado hoje pela Natal Voluntários é essencial para salvar vidas, já que nos primeiros meses é difícil distinguir os bebês afetados pela Fenilcetonúria, o mal que provoca erros congênitos.Já no futuro da minha ficção, o melhor exame seria apenas o que identificaria politiqueiros, essas figuras estranhas ao bem comum que habitam o submundo partidário, se espalham por siglas distintas, mas são tão semelhantes que o povo não consegue diferenciar a olho nu. Na tecnologia das eleições de 2046, comemorativas aos 100 anos da Constituinte de 1946, se existir o “teste do pezinho” garanto que muitas convenções seriam alvo de piada e refugo da sociedade, por não tolerar candidatos que trocam de partido e de aliado como se troca de sapatos.
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