Três a zero para a França. Três shows de Zinedine Zidane. Não estou “a falar” (vai Felipão!) das três vitórias francesas nos últimos vinte anos contra a seleção brasileira. É que assisti três vezes ao jogo do sábado, a primeira vez ao vivo, envolto num clima de torcida dos amigos ao redor, e depois, mais duas vezes, nas reprises de domingo da Band Sports e da ESPN Brasil.Contemplar três vezes a categoria exuberante de Zidane é ser afetado instantaneamente pela “síndrome de Estocolmo”, o fenômeno psicológico que provoca na vítima uma explosão de afeição e admiração pelo carrasco, paixão pelo algoz. Zidane é como um último moicano, um guerreiro elegante dos gramados com direito a sentar-se no panteão onde já estão Pelé, Garrincha, Maradona, Zizinho, Di Stefano e Puskas.Zidane é um carrasco romântico, um gentleman quando humilha o adversário. Com a mesma leveza que deitou dois brasileiros com seus dribles, estendeu a mão para levantar um Zé Roberto aos prantos. Com a mesma magia que deu um balão em Ronaldo e Gilberto Silva, afagou com um beijo as cabeças de Robinho e Cicinho, dois candidatos a seus pupilos no Real Madrid.A manchete do diário espanhol Marca, “no te jubiles nunca!”, é o sentimento dos que amam o bom futebol, o futebol de craques como Zidane, que não precisam das jogadas de marketing como lentes de aumento do seu talento. Sua maestria com a bola tem a objetividade da arte do jogo, não a ilusão do malabarismo circense. O talento de Zidane tem a dimensão que os olhos dos deuses do futebol alcançam.Horas antes dos embalos de sábado à tarde, brasileiros idiotizados pelo ufanismo midiático gritavam nas ruas de Frankfurt, “ô, ô, ô, Zidane aposentou”, enquanto apresentadores de TV gozavam dos seus 34 anos e o intragável Zagallo declarava “Zidane já era”. Logo nos primeiros minutos da partida, o francês com sangue africano mostrou que na sua terra não são apenas os vinhos que adquirem perfeição e sabor quando envelhecem. Em campo, Zidane se tornou a própria Renascença, o grande movimento de renovação das antigas escolas filosóficas de padrões clássicos, surgido na Europa do século 14. E nada mais clássico do que esse Platão da bola a destruir em noventa minutos a pobre ciência de resultados de um técnico quadrado e sem magia. Parreira não soube transformar duas dezenas de craques numa equipe, mas a França viu renascer uma equipe na manifestação de arte de um homem só, bailando em vésperas da despedida.Quisera ter agora a dádiva de traduzir gênios como Zidane, ser um Leonardo Bruni da paixão platônica que arrebata amantes da bola na adoração dos campos. Me sinto privilegiado por ter visto em vida metade desses homens incríveis e suas jogadas maravilhosas. Eu vi Pelé jogar e o vi parar, vi Maradona, Zico, Beckenbauer, Cruyff, Tostão, Garrincha e Alberí. Não queria ver agora o Zidane parar. Até porque não sei quando verei outro igual a começar.
P.s. O mais delicioso da derrota foi olhar a cara do Galvão Bueno e saber que os textos idiotas do Pedro Bial não virarão literatura em livro comemorativo ao hexa. Vou mandar botar um outdoor na porta da Globo: “Hexa vez não deu, manés!”E agora?Suderj e Nelson Rodrigues informam: sai a Pátria de Chuteiras, entra a Patuléia de Chuteiras. E ainda riram da Argentina quando perdeu jogando bem e com raça.
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