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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

“Esquenta”

Abaixo nós temos um texto de Marcos Sacramento para o site Diário do Centro do Mundo. Fez todo sentido para mim. 


O Esquenta é o programa mais conservador da televisão brasileira. É uma versão barulhenta e colorida de velhos costumes. Num primeiro olhar, parece uma grande festa na periferia, na qual as gírias, danças e modas de regiões com IDH baixo e criminalidade alta são irradiadas para todo o país pela tevê.

Vemos meninos contorcendo as articulações em performances de passinho, meninas com minissaia e microvocabulário, rapazes negros com cabelos louros e óculos espelhados de cores berrantes rodando o salão felizes e eufóricos. A festa mistura samba, funk, estilo de vida despreocupado e despudorado, concurso de beleza, humor, artistas de novela, enfim, para usar um termo bem periférico, “tudo junto e misturado”.

Essas características, apenas, não me incomodam. Não sou quadrado, respeito e até admiro algumas formas de cultura vindas do gueto e abuso do direito de desligar a TV. O que me irrita, e muito, e faz com que chame o programa de conservador e escravocrata é a cor de pele predominante nessa festa maluca.

Certamente o Esquenta é o programa com o maior percentual de negros da TV aberta. Enquanto as novelas, seriados e telejornais são predominantemente caucasianos, quem manda ali são os negros e pardos.

É esse o ponto. O programa reforça o estereótipo dos negros brasileiros como indivíduos suburbanos, subempregados, mas ainda assim felizes, sempre com um sorriso no rosto, esquecendo-se das mazelas cotidianas por meio da dança, do remelexo, das rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes.

Sou negro e não sei sambar, não pinto meu cabelo de louro, não uso cordões, não ando gingando nem falo em dialeto. Não sou exceção, felizmente. Sei que há muitos caras e moças como eu. Muitos são poliglotas, outros gostam de música clássica, vários gostam mais de livros do que de pessoas, outros reclamam do calor da Brasil, certamente há os que são introspectivos e de poucas palavras, e há os que nem sentem falta do feijão quando viajam para o exterior.

Embora o Esquenta não tenha a proposta de ser um programa sobre cultura negra, ele ajuda a construir um estereótipo. Por que as novelas não têm galãs negros ou musas negras? Faça a lista dos galãs e das musas televisivas e depois veja quantos são negros. O número será irrisório.

O Esquenta ajuda a manter essa ordem. Em vez de rapazes elegantes, mostra dançarinos com cabelos bizarros. As moças, sempre de shorts minúsculos e prosódias vulgares, nunca serviriam de modelo para capas da Marie Claire ou da Claudia.

Regina Casé e seu programa parecem dizer aos jovens dos guetos: “Ei, isso mesmo, aprendam passinho, aprendam a rebolar até o chão, continuem com seu linguajar próprio, porque tudo isso é lindo, é legal, é Brasil, é tudo junto e misturado, continuem com seus empregos modestos, porque a vida é agora, é para ser vivida, curtida, com alegria, malemolência, sempre com um sorriso no rosto”.

E assim, aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiros pela comunidade. Nunca vai pensar em aprender a falar alemão ou tentar entender os grafites de Banksy, da mesma forma que os rapazes nunca sonharão em trabalhar no Itamaraty e praticarão bullying contra os meninos polidos que não falam em dialeto e inventam de estudar violino, já que um programa televisivo de uma das principais emissoras do país legitima seu estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas.

Como um coronel oligarca e cínico, o programa dá uma recado para a garotada negra e parda da periferia: “É isso, dancem, cantem, divirtam-se. Mas não saiam do seu lugar”.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A TV aberta Mooorreu!!!


O jornalismo na TV aberta morreu. Tomou um balaço nas têmporas da qualidade e os miolos se espalharam pelos becos da audiência da periferia.
Evidente, e bastante óbvio, que minha decisão de não mais assistir a TV aberta (abrindo exceção para alguns  jogos de futebol e as zapeadas necessárias para construir um juízo de valor diante da mediocridade reinante) nada tem a ver com feitura de teses.
Imaginem eu, cheio de repulsa aos sentimentos bairristas, provincianos e patrióticos, que já não agüenta tanta apologia midiática às coisinhas da terra, aos representantes da sub-raça, à cultura sectária e umbilical dos escribas jecas e orfãos de Macunaíma.
Imaginem um cara que não agüenta mais a repetição exaustiva do velho gol de Pelé no País de Gales em 1958, as toscas imagens de Glauber Rocha, a enferrujada Palma de Ouro de 1962, as fantasias de Monte Castelo, o culto à miséria do método Paulo Freire.
Por que não acrescentar orgulhos novos à nossa História, há heróis de verdade por aí que não vestem camisa amarela, não têm militância partidária, não almoçam com Ricardo Teixeira, não escrevem bajulações nassifianas, não aparecem na TV.
Há um Brasil diferente longe dos assassinatos narrados como melodramas circenses na Rede Record, distante dos assaltos filmados com tomadas aéreas pela Band, indiferente aos arranca-rabos de marido e mulher expostos em cadeia pela Rede TV!
Santa Maria do Provincianismo do Sétimo Céu! Por que diabos o povo da Bahia precisa ver o ladrão que adormeceu numa igreja evangélica de Goiás? O que interessa aos mineiros a carreta que tombou na Raposo Tavares, já na divisa com o Paraná?
Sinto muito por Vanessa, compreendo a tristeza dos seus familiares. Mas, putaqueopariu, há dezenas de mulheres assassinadas por aí, ali na esquina da casa do leitor que está me lendo até agora. Chega de crimes narrados por capítulos.
Nós temos tantas coisas grandes pra conquistar, como disse o saudoso Raul Seixas; será que vale a pena ficar aí parado assistindo tanta coisa que nada nos acrescenta. Parece até campeonatos estaduais de futebol: não servem pra nada, mas alguns assistem e insistem.
Compreendo o povo pobre refém das TVs abertas, restritos aos aparelhos de TV via UHF, sem acesso aos canais fechados. Mas, alguém me justifique, uma mente aberta, um ser inteligente e com poder aquisitivo, vidrado nas baboseiras da TV aberta.
Só há um bom motivo – pelo menos pra mim – para se zapear o controle remoto pelo lixo diário da televisão nacional: registrar o nível da programação, com a prioridade dada à violência urbana, sem contar as novelinhas, os auditórios e os cultos religiosos.
No mais, é bastante salutar acompanhar apenas os bons filmes, o futebol, os documentários e, principalmente, os telejornais dos canais estrangeiros disponíveis na grade de programação. Violência há, na civilização, mas a TV de lá não mostra.

 Só se for a violência que muda a vida e a História, como nos conflitos sociais e políticos que ocorrem pelo mundo. Quem precisa do Luciano Faccioli, do Geraldo Luís, do Augusto Xavier, da Ana Paula Padrão ou do William Bonner? Sou alérgico às irrelevâncias nativas.
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